Parte II · Capítulo I — Preparação do procedimento
Artigo 35.º-B — Iniciativas espontâneas.
1 - Qualquer operador económico interessado pode apresentar à entidade adjudicante competente uma iniciativa espontânea para efetuar quaisquer prestações ao abrigo de contratos públicos.
2 - Para o efeito do número anterior, o operador interessado apresenta um estudo técnico que defina o objeto do contrato a celebrar, identifique o interesse público a realizar e indique as condições essenciais da concretização da pretensão, designadamente de natureza legal e económico-financeira.
3 - No prazo de 90 dias contado da receção da iniciativa espontânea, a entidade adjudicante procede à análise da legalidade, da conveniência e da exequibilidade da pretensão, podendo solicitar esclarecimentos ao interessado.
4 - Na ausência de resposta da entidade adjudicante, considera-se que a pretensão não é atendida.
5 - Se a entidade adjudicante entender que a pretensão é viável e tiver interesse na sua concretização, pode utilizar o estudo técnico na preparação das peças do procedimento de formação de um contrato público, devendo ser dado cumprimento ao disposto no artigo 49.º
6 - A versão original do estudo técnico referido no número anterior deve ser disponibilizada aos candidatos ou concorrentes, sendo aplicável o disposto nos n.os 3 e 4 do artigo 35.º-A.
7 - Se participar no procedimento de formação do contrato e a sua proposta não for excluída nem adjudicada, o autor da iniciativa espontânea tem direito a ser reembolsado pelos encargos comprovadamente incorridos com a elaboração do estudo técnico apresentado.
8 - No caso de não existir acordo quanto ao montante do reembolso referido no número anterior, podem as partes recorrer a meios judiciais ou arbitrais.
9 - Aos procedimentos de formação de contratos iniciados na sequência de apresentação de iniciativas espontâneas aplica-se o disposto nos n.os 2, 3 e 4 do artigo 35.º-A.
Alterado porDL n.º 177/2026, de 04/09 — ver a cronologia
Texto da republicação do Código no anexo II do Decreto-Lei n.º 177/2026; em caso de dúvida, prevalece a publicação oficial no Diário da República.
O artigo 35.º-B não existia na redação anterior: foi aditado pelo Decreto-Lei n.º 177/2026.
Anotações Procurai
Por Mara Ribeiro Duarte, Head of Public Sector na Closer
Em síntese
O artigo 35.º-B cria a iniciativa espontânea: qualquer operador económico pode propor à entidade adjudicante competente a execução de prestações ao abrigo de um contrato público, apresentando um estudo técnico com o objeto, o interesse público a realizar e as condições essenciais, legais e económico-financeiras. A entidade tem 90 dias para analisar a proposta, e o silêncio vale como não atendimento. Se avançar, usa o estudo para preparar as peças de um procedimento em que o autor concorre com os demais, com regras que neutralizam a vantagem de quem o preparou.
Na prática
- Quem apresenta, e a quem. Qualquer operador económico, para quaisquer prestações que possam ser objeto de contrato público (n.º 1), à entidade adjudicante competente para as contratar. O artigo não fixa forma nem prazo para a apresentação.
- O que tem de trazer. Um estudo técnico que defina o objeto do contrato, identifique o interesse público a realizar e indique as condições essenciais da concretização, designadamente legais e económico-financeiras (n.º 2). Sem estes três elementos, a entidade não tem o que analisar.
- A análise. Legalidade, conveniência e exequibilidade, em 90 dias contados da receção, com possibilidade de pedir esclarecimentos (n.º 3). Sem resposta nesse prazo, a pretensão considera-se não atendida (n.º 4).
- Se a entidade avançar. Pode usar o estudo na preparação das peças, mas as especificações técnicas têm de cumprir o artigo 49.º (n.º 5): igualdade de acesso dos operadores, e nada de referências a marcas, fabricos ou processos de um fornecedor, salvo a título excecional e com a menção «ou equivalente».
- Transparência no procedimento. A versão original do estudo é disponibilizada aos candidatos ou concorrentes (n.º 6), e aplicam-se os n.ºs 2 a 4 do artigo 35.º-A (n.ºs 6 e 9): o procedimento não pode distorcer a concorrência, e a entidade tem de comunicar a todos a informação pertinente trocada com o autor e fixar prazos adequados para as propostas.
- O reembolso. O autor que concorra e cuja proposta não seja excluída nem adjudicada tem direito aos encargos comprovadamente incorridos com o estudo (n.º 7). Sem acordo sobre o montante, as partes podem recorrer a tribunal ou a arbitragem (n.º 8).
Exemplos
Uma empresa propõe a um município um sistema de gestão da iluminação pública, com um estudo que descreve a solução, a poupança esperada e o modelo de financiamento. O município regista a data de receção, pede esclarecimentos sobre os pressupostos da poupança e, dentro dos 90 dias, decide avançar. No caderno de encargos, reescreve em requisitos de desempenho as especificações que no estudo remetiam para o equipamento da proponente, disponibiliza o estudo original a todos os concorrentes e dá um prazo para as propostas que compense o avanço de quem preparou a solução.
A mesma empresa concorre, a proposta é admitida e fica em segundo lugar. Tem direito a ser reembolsada do que provar ter gasto com o estudo, por exemplo as faturas dos consultores que o elaboraram. O que não conseguir comprovar fica de fora do reembolso.
Outra proponente concorre, mas é excluída por não ter suprido uma irregularidade no prazo dado pelo júri. Não tem direito a reembolso: o n.º 7 exige que a proposta não seja excluída, qualquer que seja o motivo da exclusão.
Uma iniciativa fica sem resposta durante quatro meses. Ao fim de 90 dias a pretensão considera-se não atendida. O operador não tem direito a que se abra procedimento, e a entidade fica sem o rasto de uma decisão fundamentada, que é o que um auditor lhe vai pedir.
Erros a evitar
- Não registar a data de receção e deixar correr os 90 dias sem decisão fundamentada: o silêncio tem efeito legal, e a falta de rasto documental é difícil de defender.
- Copiar para o caderno de encargos as especificações do estudo tal como vêm, com referências ao produto ou ao método do autor, sem as reformular em desempenho nem acrescentar a menção «ou equivalente».
- Disponibilizar o estudo só a alguns candidatos, ou disponibilizar uma versão editada em vez da original.
- Fixar prazos curtos para as propostas quando o autor preparou a solução durante meses.
- Excluir o autor só por ter preparado o estudo, sem antes tomar as medidas do artigo 35.º-A.
- Pagar o reembolso a quem ganhou ou foi excluído, ou pagar sem prova dos encargos.
Cuidados
A figura é nova e o artigo deixa pontos em aberto. Não fixa prazo entre a análise favorável e a abertura do procedimento, nem diz que procedimento se segue: escolhe-se pelas regras gerais, e o preâmbulo do Decreto-Lei n.º 177/2026 apresenta a iniciativa espontânea como forma de canalizar as iniciativas privadas para procedimentos concorrenciais regulares. A disponibilização do estudo «na versão original» também não ressalva segredos comerciais nem direitos de propriedade intelectual.
Do lado da entidade, o essencial é documentar: a receção, os critérios da análise, os esclarecimentos pedidos, a decisão e, se avançar, como neutralizou no procedimento a vantagem do autor. A exclusão do autor por ter participado na preparação fica para o último caso, quando essa vantagem falseie as condições normais de concorrência e não possa ser corrigida de outra forma (artigo 55.º, n.º 1, alínea i)). Do lado do operador, antes de apresentar vale a pena separar o que o estudo precisa de mostrar do que é segredo do negócio, porque a versão entregue é a que os concorrentes vão ler.
Perguntas frequentes sobre o artigo 35.º-B
A iniciativa espontânea dá ao autor direito ao contrato?
Não. Se tiver interesse, a entidade usa o estudo técnico para preparar as peças de um procedimento de formação de contrato, escolhido pelas regras gerais, em que o autor concorre com os outros operadores. O que o artigo lhe garante é o reembolso do estudo quando concorre, não é excluído e não ganha.
Base legalArtigo 35.º-B, n.ºs 5, 7 e 9, do CCP · texto oficial
O que acontece se a entidade não responder em 90 dias?
A pretensão considera-se não atendida. O prazo conta da receção da iniciativa, e durante a análise da legalidade, da conveniência e da exequibilidade a entidade pode pedir esclarecimentos ao interessado.
Base legalArtigo 35.º-B, n.ºs 3 e 4, do CCP · texto oficial
Quem tem direito a ser reembolsado, e de quê?
O autor da iniciativa que participe no procedimento e cuja proposta não seja excluída nem adjudicada. Recebe os encargos que comprove ter suportado com a elaboração do estudo técnico. Sem acordo sobre o montante, a questão pode ir a tribunal ou a arbitragem.
Base legalArtigo 35.º-B, n.ºs 7 e 8, do CCP · texto oficial
O estudo técnico fica confidencial?
Não por regra. A versão original do estudo tem de ser disponibilizada aos candidatos ou concorrentes do procedimento que o use, e o artigo não ressalva segredos comerciais nem direitos de propriedade intelectual. Quem apresenta uma iniciativa deve contar com isso.
Base legalArtigo 35.º-B, n.º 6, do CCP · texto oficial
Relacionados
Nesta revisão
O que muda neste artigo a 1 de outubro de 2026, nota a nota.
Referido em
Artigo anterior
Artigo 35.º-A — Consulta preliminar ao mercado e participação de candidatos ou concorrentes
Artigo seguinte
Artigo 35.º-C — Período de teste de sistemas e tecnologias de informação
O Crivo cita os artigos do CCP nas validações que faz a cada procedimento — este incluído. Veja como na demonstração.
Pedir demonstraçãoInformação de carácter geral, baseada na versão consolidada do CCP (Decreto-Lei n.º 18/2008). Não constitui aconselhamento jurídico.