Parte II · Secção III — Consulta prévia especial
Artigo 127.º-B — Âmbito e condicionalismos de adoção da consulta prévia especial.
O procedimento de consulta prévia especial pode ser adotado para a formação de contratos, quando o valor estimado do contrato for, simultaneamente, inferior aos limiares referidos nos n.os 2, 3 ou 4 do artigo 474.º, consoante o caso, e inferior a 2 000 000 €, que tenham por objeto:
a) A execução de projetos financiados ou cofinanciados por fundos europeus;
b) A promoção de habitação pública ou de custos controlados, bem como naquela cujas competências de gestão patrimonial foram transferidas para os municípios;
c) A intervenção nos imóveis cuja titularidade e gestão tenha sido transferida para os municípios, no âmbito do processo de descentralização de competências;
d) A locação ou a aquisição de equipamentos informáticos, a aquisição, renovação, prorrogação ou manutenção de licenças ou serviços de software, a aquisição de serviços de computação ou de armazenamento em cloud, assim como a aquisição de serviços de consultoria ou assessoria e a realização de obras necessárias ao desenvolvimento de processos de transformação digital;
e) A locação ou aquisição de bens móveis, a aquisição de serviços ou a realização de obras públicas e se destinem à construção, renovação ou reabilitação de imóveis no âmbito do setor da saúde, das unidades de cuidados continuados e integrados, e do apoio social no âmbito das pessoas idosas, da deficiência, da infância e da juventude;
f) A promoção de intervenções que, por despacho do membro do Governo responsável pelo respetivo setor de atividade, sejam consideradas prioritárias ou estratégicas para o desenvolvimento regional ou nacional.
Alterado porDL n.º 177/2026, de 04/09 — ver a cronologia
Texto da republicação do Código no anexo II do Decreto-Lei n.º 177/2026; em caso de dúvida, prevalece a publicação oficial no Diário da República.
O artigo 127.º-B não existia na redação anterior: foi aditado pelo Decreto-Lei n.º 177/2026.
Anotações Procurai
Por Mara Ribeiro Duarte, Head of Public Sector na Closer
Em síntese
O artigo 127.º-B diz quando se pode usar a consulta prévia especial. São três condições cumulativas: o valor estimado do contrato tem de ser inferior ao limiar europeu aplicável (artigo 474.º, n.ºs 2, 3 ou 4); tem de ser inferior a 2 000 000 €; e o objeto tem de caber numa de seis áreas: fundos europeus, habitação pública ou de custos controlados, imóveis transferidos para os municípios, transformação digital, saúde e apoio social, e intervenções declaradas prioritárias por despacho do Governo.
Na prática
- O teto efetivo depende do tipo de contrato. Nas empreitadas, o limiar europeu é de 5 404 000 €, por isso manda o teto de 2 000 000 €. Nos bens e serviços manda o limiar europeu: 216 000 € para a generalidade das entidades e 140 000 € para o Estado (o artigo 474.º republicado escreve 139 000 €, mas prevalece o Regulamento Delegado (UE) 2025/2152). Nos setores especiais, 432 000 €.
- Onde acrescenta alguma coisa. A consulta prévia de regime geral já vai até 1 000 000 € nas empreitadas e até 130 000 € nos bens e serviços (artigos 19.º e 20.º). A especial abre, nas seis áreas, as empreitadas entre 1 e 2 milhões de euros e os bens e serviços entre 130 000 € e o limiar europeu, em troca de cinco convites em vez de três.
- O valor é o valor estimado do contrato, calculado pelas regras do artigo 17.º e com as regras de agregação do artigo 17.º-B, e não o preço base nem o preço da proposta que se espera.
- As seis áreas:
- a) projetos financiados ou cofinanciados por fundos europeus;
- b) promoção de habitação pública ou de custos controlados, incluindo a habitação cuja gestão patrimonial passou para os municípios;
- c) intervenção em imóveis cuja titularidade e gestão passou para os municípios, na descentralização de competências;
- d) transformação digital: equipamento informático, licenças e serviços de software, computação e armazenamento em cloud, e a consultoria, a assessoria e as obras necessárias a esses processos;
- e) bens, serviços e obras para construir, renovar ou reabilitar imóveis na saúde, nos cuidados continuados e integrados e no apoio social a idosos, pessoas com deficiência, infância e juventude;
- f) intervenções que o membro do Governo do setor considere prioritárias ou estratégicas, por despacho.
- A escolha é fundamentada. Como qualquer escolha de procedimento (artigo 38.º), a decisão tem de dizer em que alínea cabe o contrato e o que a preenche: o programa de financiamento, a natureza do imóvel, o despacho.
Exemplos
Uma câmara municipal quer adquirir licenças de software de gestão documental, com valor estimado de 180 000 €. Cabe na alínea d) e fica abaixo do limiar de 216 000 € aplicável aos municípios: pode usar a consulta prévia especial, com cinco convites, em vez de concurso público. Se a entidade fosse um ministério, o limiar seria de 140 000 € e o contrato já não caberia.
Uma entidade quer construir uma unidade de cuidados continuados integrados, com valor estimado de 1 900 000 €. Cabe na alínea e) e fica abaixo de 2 000 000 € e do limiar europeu das empreitadas: pode usar-se.
A mesma unidade, com valor estimado de 2 000 000 €. Já não cabe: o valor tem de ser inferior a 2 000 000 €, e igual não chega.
Um município quer comprar mobiliário de escritório para os serviços, por 150 000 €, sem fundos europeus. Não cabe em nenhuma das seis áreas: aplica-se o regime geral, e acima de 130 000 € isso afasta a consulta prévia.
Erros a evitar
- Usar o preço base, ou o preço que se espera receber, em vez do valor estimado do contrato.
- Aplicar o teto de 2 000 000 € aos bens e serviços, esquecendo que aí manda o limiar europeu.
- Invocar a alínea a) sem identificar o programa ou o financiamento europeu do projeto.
- Invocar a alínea f) sem o despacho do membro do Governo.
- Partir um contrato para o pôr abaixo dos limites (artigo 17.º-B).
Cuidados
As seis áreas são o que justifica um procedimento com menos concorrência, e é aí que um auditor vai olhar primeiro: a decisão de escolha do procedimento deve identificar a alínea e os factos que a preenchem. Na alínea d), o objeto tem de ser, de facto, transformação digital (equipamento, software, cloud e os serviços e obras necessários a esses processos), e não qualquer contrato com uma componente informática. Até 30 de setembro de 2026, o que havia de parecido era a consulta prévia simplificada da Lei n.º 30/2021; os procedimentos iniciados até essa data seguem as regras com que começaram (artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 177/2026).
Perguntas frequentes sobre o artigo 127.º-B
Quais são as condições para usar a consulta prévia especial?
Três, ao mesmo tempo: valor estimado do contrato inferior ao limiar europeu aplicável; inferior a 2 000 000 €; e objeto numa das seis áreas das alíneas a) a f). Falhando uma, aplica-se o procedimento que o valor e o objeto ditarem pelas regras gerais.
Base legalArtigo 127.º-B do CCP · texto oficial
Até que valor se pode usar nas empreitadas? E nos bens e serviços?
Nas empreitadas, até 2 000 000 €, porque o limiar europeu de 5 404 000 € é mais alto. Nos bens e serviços, até ao limiar europeu: 216 000 € para a generalidade das entidades adjudicantes e 140 000 € para o Estado. Em ambos os casos o valor tem de ser inferior, não igual.
Base legalArtigo 127.º-B do CCP · Artigo 474.º, n.ºs 2 e 3, do CCP · texto oficial
Que contratos cabem na transformação digital?
A locação ou aquisição de equipamentos informáticos; a aquisição, renovação, prorrogação ou manutenção de licenças ou serviços de software; os serviços de computação ou de armazenamento em cloud; e a consultoria, a assessoria e as obras necessárias ao desenvolvimento de processos de transformação digital.
Base legalArtigo 127.º-B, alínea d), do CCP · texto oficial
Um despacho do Governo pode alargar o âmbito?
Pode. A alínea f) admite as intervenções que o membro do Governo responsável pelo setor considere, por despacho, prioritárias ou estratégicas para o desenvolvimento regional ou nacional. Sem esse despacho a via não existe, e os limites de valor mantêm-se.
Base legalArtigo 127.º-B, alínea f), do CCP · texto oficial
Relacionados
Nesta revisão
O que muda neste artigo a 1 de outubro de 2026, nota a nota.
Remissões no Código
Este artigo remete para
Referido em
Artigo anterior
Artigo 127.º-A — Noção e regime de consulta prévia especial
Artigo seguinte
Artigo 127.º-C — Escolha das entidades convidadas
O Crivo cita os artigos do CCP nas validações que faz a cada procedimento — este incluído. Veja como na demonstração.
Pedir demonstraçãoInformação de carácter geral, baseada na versão consolidada do CCP (Decreto-Lei n.º 18/2008). Não constitui aconselhamento jurídico.