Revisão do CCP 2026 · Propostas, adjudicação e contrato
Capacidade financeira: o teto do dobro passa a cobrir só o volume de negócios
Por Mara Ribeiro Duarte, Head of Public Sector na Closer
Artigos afetadosArtigo 165.º, n.ºs 3 (revogado), 8 e 9 · artigo 165.º-A (novo) · artigo 168.º, n.º 4
O que muda
Na redação anterior, «os requisitos mínimos de capacidade financeira não podem exceder o dobro do valor do contrato», e deviam reportar-se à aptidão para mobilizar os meios financeiros necessários ao cumprimento. Esse n.º 3 foi revogado.
O novo n.º 9 mantém o teto, mas incide apenas sobre o volume de negócios anual mínimo: «não pode exceder o dobro do valor estimado do contrato, salvo em casos devidamente justificados». É a redação da Diretiva 2014/24/UE, artigo 58.º, n.º 3. E o recurso às capacidades de terceiros ganha um artigo próprio, o 165.º-A, novo, que o admite para a capacidade técnica, como já fazia, na redação anterior, o artigo 168.º, n.º 4. Da capacidade financeira, o artigo não fala.
O que implica na prática
Aproximação literal à diretiva, mas com perda de proteção. Requisitos financeiros de outra natureza — rácios de solvabilidade, autonomia financeira, liquidez, capitais próprios, seguros, ratings — ficam sem teto legal, e perdem-se a exemplificação da justificação e a cláusula de proporcionalidade teleológica. No concurso público flexível, o artigo 161.º-D, n.º 1, remete para os artigos 165.º-A e 182.º mas não para o artigo 165.º: nem o teto do volume de negócios se aplica ali de forma expressa.
No recurso a terceiros não se perde nada, porque, na redação anterior, o artigo 168.º, n.º 4, também só falava da capacidade técnica. Mas o limite mantém-se, quando a Diretiva 2014/24/UE, artigo 63.º, n.º 1, admite o recurso a terceiros também para a capacidade financeira, como o próprio Código faz nos sistemas de qualificação (artigo 246.º, n.º 7). Para a financeira, o apoio está no novo artigo 168.º, n.º 4, alínea b), que fala dos requisitos mínimos sem distinguir, e, no concurso público flexível, no artigo 161.º-D, n.º 1, que manda aplicar o 165.º-A, com as necessárias adaptações, também quando se exige capacidade financeira.
O que fazer
Entidades: fundamentar cada requisito financeiro por referência ao risco concreto do contrato, e admitir o recurso a terceiros também na capacidade financeira, com base no artigo 168.º, n.º 4, alínea b), e na Diretiva 2014/24/UE, artigo 63.º, n.º 1. Operadores: um requisito financeiro desproporcionado continua a ser um dos fundamentos de impugnação de peças mais promissores.
O regime descrito está em vigor desde 1 de outubro de 2026, com a redação do Código dos Contratos Públicos dada pelo Decreto-Lei n.º 177/2026, de 4 de setembro. Aos procedimentos iniciados até 30 de setembro continua a aplicar-se a redação anterior.
As duas redações
O texto em vigor até 30 de setembro de 2026 e o da republicação pelo Decreto-Lei n.º 177/2026, lado a lado.
Artigo 165.º — Requisitos mínimos de capacidade técnica e financeira
Ver a página do artigoAté 30 de setembro de 2026
1 - Os requisitos mínimos de capacidade técnica a que se refere a alínea h) do n.º 1 do artigo anterior devem ser adequados à natureza das prestações objeto do contrato a celebrar, descrevendo situações, qualidades, características ou outros elementos de facto relativos, designadamente:
a) À experiência curricular dos candidatos;
b) Aos recursos humanos, tecnológicos, de equipamento ou outros utilizados, a qualquer título, pelos candidatos;
c) Ao modelo e à capacidade organizacionais dos candidatos, designadamente no que respeita à direção e integração de valências especializadas, aos sistemas de informação de suporte e aos sistemas de controlo de qualidade;
d) À capacidade dos candidatos adotarem medidas de gestão ambiental no âmbito da execução do contrato a celebrar;
e) (Revogada.)
2 - (Revogado.)
3 - Os requisitos mínimos de capacidade financeira a que se refere o n.º 4 do artigo anterior não podem exceder o dobro do valor do contrato, salvo em casos devidamente justificados, designadamente quando se prenda com os riscos especiais associados à natureza do contrato, e devem reportar-se à aptidão estimada dos candidatos para mobilizar os meios financeiros previsivelmente necessários para o integral cumprimento das obrigações resultantes do contrato a celebrar.
4 - Quando, no caso de empreitadas ou de concessões de obras públicas, os requisitos mínimos de capacidade técnica e de capacidade financeira exigidos no programa do concurso se basearem em elementos de facto já tidos em consideração para efeitos da concessão do alvará ou título de registo contendo as habilitações adequadas e necessárias à execução da obra a realizar, tais requisitos devem ser mais exigentes que os legalmente previstos para aquela concessão.
5 - (Revogado.)
A partir de 1 de outubro de 2026
1 - As entidades adjudicantes podem impor requisitos mínimos de capacidade técnica, os quais devem ser adequados à natureza das prestações objeto do contrato a celebrar, descrevendo situações, qualidades, características ou outros elementos de facto relativos, designadamente:
a) À experiência curricular dos candidatos;
b) Aos recursos humanos, tecnológicos, de equipamento ou outros utilizados, a qualquer título, pelos candidatos;
c) Ao modelo e à capacidade organizacionais dos candidatos, designadamente no que respeita à direção e integração de valências especializadas, aos sistemas de informação de suporte e aos sistemas de controlo de qualidade;
d) À capacidade dos candidatos adotarem medidas de gestão ambiental no âmbito da execução do contrato a celebrar;
e) [Revogada.]
2 - [Revogado.]
3 - [Revogado.]
4 - Quando, no caso de empreitadas ou de concessões de obras públicas, os requisitos mínimos de capacidade técnica e de capacidade financeira exigidos no programa do concurso se basearem em elementos de facto já tidos em consideração para efeitos da concessão do alvará ou título de registo contendo as habilitações adequadas e necessárias à execução da obra a realizar, tais requisitos devem ser mais exigentes que os legalmente previstos para aquela concessão.
5 - [Revogado.]
6 - Quando for exigida a apresentação de certificados emitidos por organismos independentes, nacionais ou estabelecidos noutros Estados-Membros da União Europeia, que atestem que o interessado respeita determinadas normas de garantia de qualidade ou normas de gestão ambiental, deve referir-se, respetivamente, aos sistemas de garantia de qualidade ou aos sistemas de gestão ambiental baseados no Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria (EMAS) ou no conjunto de normas europeias, e certificados por organismos conformes com as séries de normas europeias respeitantes à certificação.
7 - Para os efeitos do disposto no número anterior, as entidades adjudicantes devem reconhecer também outras provas de medidas de garantia de qualidade ou de medidas de gestão ambiental equivalentes apresentadas por interessados que não tenham acesso aos referidos certificados ou que demonstrem que os não possam obter dentro do prazo de apresentação das candidaturas.
8 - As entidades adjudicantes podem também impor requisitos destinados a assegurar que os candidatos dispõem da capacidade financeira necessária para executar o contrato, podendo, nomeadamente, exigir que eles tenham um determinado volume de negócios anual mínimo ou que forneçam informações sobre as suas contas anuais.
9 - Para os efeitos do disposto no número anterior, o volume de negócios anual mínimo exigido não pode exceder o dobro do valor estimado do contrato, salvo em casos devidamente justificados.
Artigo 168.º — Documentos da candidatura
Ver a página do artigoAté 30 de setembro de 2026
1 - A candidatura é constituída pelos documentos destinados à qualificação dos candidatos e pela declaração conforme o modelo constante no anexo v ao presente Código, do qual faz parte integrante, a qual é substituída pelo Documento Europeu Único de Contratação Pública nos procedimentos com publicação de anúncio no Jornal Oficial da União Europeia.
2 - A declaração do anexo v ao presente Código ou o Documento Europeu Único de Contratação Pública referidos no número anterior devem ser assinados pelo candidato ou por representante que tenha poderes para o obrigar.
3 - Quando a candidatura seja apresentada por um agrupamento candidato, a declaração do anexo v ao presente Código ou o Documento Europeu Único de Contratação Pública referidos no n.º 1 devem ser assinados pelo representante comum dos membros que o integram, caso em que devem ser juntos ao respetivo documento os instrumentos de mandato emitidos por cada um dos seus membros ou, não existindo representante comum, deve ser assinada por todos os seus membros ou respetivos representantes.
4 - Quando, para efeitos do preenchimento dos requisitos mínimos de capacidade técnica, o candidato recorra a terceiros, independentemente do vínculo que com eles estabeleça, nomeadamente o de subcontratação, a respetiva candidatura é ainda constituída por uma declaração através da qual estes se comprometam, incondicionalmente, a realizar determinadas prestações objeto do contrato a celebrar.
A partir de 1 de outubro de 2026
1 - A candidatura é constituída por uma declaração na qual o candidato manifesta a sua vontade de ser qualificado ou pelo Documento Europeu Único de Contratação Pública nos procedimentos com publicação de anúncio no Jornal Oficial da União Europeia.
2 - A declaração ou o Documento Europeu Único de Contratação Pública referido no número anterior devem ser assinados pelo candidato ou por representante que tenha poderes para o obrigar.
3 - Quando a candidatura seja apresentada por um agrupamento candidato, a declaração ou o Documento Europeu Único de Contratação Pública referido no n.º 1 devem ser assinados pelo representante comum dos membros que o integram, caso em que devem ser juntos ao respetivo documento os instrumentos de mandato emitidos por cada um dos seus membros ou, não existindo representante comum, deve ser assinada por todos os seus membros ou respetivos representantes que tenham poderes para os obrigar.
4 - Se o programa do concurso o exigir, a candidatura deve ser constituída:
a) Pelos documentos comprovativos do cumprimento, pelo candidato, dos requisitos mínimos de capacidade técnica e financeira;
b) Quando o candidato recorra a terceiros para efeitos do preenchimento dos requisitos mínimos, por documento comprovativo de que o candidato irá efetivamente dispor dos recursos necessários disponibilizados por terceiros, que poderá ser uma declaração através da qual aqueles terceiros se comprometem, incondicionalmente, a realizar determinadas prestações objeto do contrato a celebrar.
5 - A apresentação de candidatura equivale, em qualquer caso, à declaração pelo candidato de que tomou conhecimento das peças do procedimento e de que não se encontra em nenhuma das situações previstas no n.º 1 do artigo 55.º
6 - A apresentação de candidatura por candidato que se encontre numa das situações previstas no n.º 1 do artigo 55.º constitui prestação de falsas declarações para os efeitos previstos no artigo 456.º, salvo se tiver dado a conhecer tais situações à entidade adjudicante, designadamente para apuramento, por esta, da existência do impedimento ou para efeitos de relevação.
Artigo 165.º-A — Recurso às capacidades de terceiros
Ver a página do artigoAté 30 de setembro de 2026
O artigo não existe na redação anterior.
A partir de 1 de outubro de 2026
Para efeitos da verificação do cumprimento dos requisitos mínimos de capacidade técnica, os candidatos podem recorrer às capacidades de outras entidades, independentemente do vínculo que com elas estabeleça.
Mais sobre propostas, adjudicação e contrato
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Concurso limitado: qualificação por declaração, com prova diferida
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Modificação do contrato: cinco fundamentos com limiares próprios
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Pedir demonstraçãoInformação de carácter geral, baseada na versão consolidada do CCP (Decreto-Lei n.º 18/2008). Não constitui aconselhamento jurídico.