Parte II · Capítulo II — Escolha do procedimento e valor estimado do contrato
Artigo 17.º-B — Fracionamento e regras de agregação do valor estimado do contrato.
1 - O valor estimado do contrato não pode ser calculado, nem o objeto do contrato pode ser fracionado, com o intuito de excluir a observância de quaisquer exigências legais, designadamente das constantes do presente Código.
2 - Quando a entidade adjudicante for organizada por unidades orgânicas, deve ser tido em conta o valor total estimado dos contratos celebrados por todas elas, salvo se forem independentemente responsáveis pelas suas aquisições, nomeadamente por se tratar de serviços periféricos ou municipalizados.
3 - Quando prestações do mesmo tipo, suscetíveis de constituírem objeto de um único contrato, sejam contratadas através de mais do que um procedimento, o valor estimado a considerar para a escolha de cada procedimento é o do somatório dos valores estimados dos vários contratos.
4 - As entidades adjudicantes ficam dispensadas do disposto no número anterior relativamente à formação de contrato ou de um conjunto de contratos cujo valor estimado seja inferior a 80 000 €, no caso de bens e serviços, ou a 1 000 000 €, no caso de empreitadas de obras públicas, se o valor estimado daquele contrato ou daquele conjunto de contratos não exceder 20 % do somatório calculado nos termos do número anterior.
5 - Tratando-se de contratos de aquisição de bens móveis ou de serviços de uso corrente ou que se destinem a ser prorrogados durante um determinado período, o valor estimado do contrato deve ser calculado com base:
a) No somatório dos preços contratuais de todos os contratos do mesmo tipo adjudicados durante os 12 meses anteriores, corrigido, quando possível, para atender às alterações de quantidades ou de valor que possam ocorrer durante os 12 meses seguintes à celebração do contrato inicial; ou
b) No somatório do valor estimado dos sucessivos contratos que preveja vir a celebrar durante os 12 meses seguintes ao início da execução do primeiro contrato.
6 - Para efeitos do disposto no n.º 3, consideram-se:
a) Do mesmo tipo as prestações que se revelem aptas a satisfazer a mesma necessidade da entidade adjudicante;
b) Suscetíveis de constituir objeto de um único contrato as prestações que, no seu conjunto, revelem uma função unitária económica e técnica.
Alterado porDL n.º 177/2026, de 04/09 — ver a cronologia
Texto da republicação do Código no anexo II do Decreto-Lei n.º 177/2026; em caso de dúvida, prevalece a publicação oficial no Diário da República.
O artigo 17.º-B não existia na redação anterior: foi aditado pelo Decreto-Lei n.º 177/2026.
Anotações Procurai
Por Mara Ribeiro Duarte, Head of Public Sector na Closer
Em síntese
O artigo 17.º-B junta as regras que impedem que o valor estimado sirva para fugir a procedimentos mais exigentes. Proíbe calcular o valor ou fracionar o objeto com esse intuito (n.º 1) e manda contar juntas as unidades orgânicas que não compram de forma independente (n.º 2). Quando prestações do mesmo tipo, que podiam formar um só contrato, são contratadas em vários procedimentos, cada procedimento escolhe-se pelo somatório (n.º 3), com uma dispensa para contratos pequenos (n.º 4). Nos bens e serviços de uso corrente, o valor estima-se a 12 meses (n.º 5). Substitui o antigo artigo 22.º e os n.ºs 6 e 8 do antigo artigo 17.º.
Na prática
- O fracionamento proibido (n.º 1). Tanto dividir o objeto como calcular o valor estimado por baixo, com o intuito de afastar exigências legais. A redação anterior falava só em fracionar o valor; a nova apanha também o cálculo.
- As unidades orgânicas (n.º 2). Numa entidade organizada por departamentos ou serviços, conta o valor de todos, salvo se forem independentemente responsáveis pelas suas aquisições, como os serviços periféricos ou municipalizados.
- A soma (n.º 3). Se prestações do mesmo tipo, suscetíveis de um único contrato, forem contratadas em mais do que um procedimento, cada um escolhe-se pelo somatório dos valores estimados de todos os contratos. Desaparecem os critérios do antigo artigo 22.º, os procedimentos em simultâneo ou ao longo de um ano: basta que haja vários procedimentos.
- Os dois testes (n.º 6). Mesmo tipo: prestações aptas a satisfazer a mesma necessidade. Suscetíveis de um único contrato: prestações que, em conjunto, revelam uma função unitária económica e técnica. Só se soma quando os dois testes dão positivo.
- A dispensa (n.º 4). Um contrato ou conjunto de contratos com valor estimado inferior a 80 000 €, nos bens e serviços, ou a 1 000 000 €, nas empreitadas, fica fora da soma se não exceder 20 % do somatório. Era já a regra do n.º 2 do antigo artigo 22.º.
- Uso corrente e prorrogáveis (n.º 5). O valor estima-se pelo somatório dos contratos do mesmo tipo dos 12 meses anteriores, corrigido para as alterações previsíveis, ou pelo somatório dos contratos que a entidade preveja celebrar nos 12 meses seguintes ao início do primeiro. A regra é nova no Código e segue o artigo 5.º, n.º 11, da Diretiva 2014/24/UE.
Exemplos
Um município pinta seis escolas nas férias de verão, em seis ajustes diretos de 30 000 €. As prestações são do mesmo tipo e podiam ser um só contrato: o somatório é de 180 000 €, e cada procedimento escolhe-se por esse valor. Acima de 150 000 €, o ajuste direto pelo valor fica afastado nas empreitadas.
Uma entidade contrata por concurso a limpeza dos seus edifícios, por 400 000 €, e precisa de limpar um anexo novo por 70 000 €. Mesmo que as duas prestações somem, o anexo pode escolher o procedimento pelo seu próprio valor: é inferior a 80 000 € e não passa de 20 % dos 470 000 € do somatório (n.º 4).
Um instituto público com delegações regionais que compram de forma independente. As compras de cada delegação não se somam às da sede (n.º 2). Se as delegações não tiverem autonomia de aquisição, soma-se tudo.
Consumíveis de impressão comprados ao longo do ano em encomendas de 5 000 €. O valor estimado é o somatório do que se comprou nos 12 meses anteriores, ajustado ao que se prevê, ou do que se prevê comprar nos 12 meses seguintes (n.º 5). Se der 90 000 €, o fornecimento escolhe-se por esse valor, o que afasta o ajuste direto: o caminho é um contrato anual por consulta prévia, e não encomendas avulsas.
Erros que aparecem em auditoria
- Partir a mesma necessidade em vários ajustes diretos abaixo do limite, no mesmo ano, ao mesmo fornecedor ou a fornecedores diferentes.
- Estimar o valor por baixo para caber no procedimento pretendido, sem os critérios objetivos do artigo 17.º, n.º 7.
- Somar ou separar prestações sem registar o teste do n.º 6: que necessidade servem e se têm função unitária.
- Usar a dispensa do n.º 4 sem guardar o cálculo dos 20 %.
- Tratar como independentes, para efeitos de soma, unidades orgânicas sem autonomia de aquisição.
Cuidados
O fracionamento é dos achados mais comuns em auditoria à contratação pública, e é visível: o portal BASE mostra quem contratou o quê, a quem e quando. O critério da função unitária económica e técnica, que até aqui vinha sobretudo da prática do Tribunal de Contas, passa a estar escrito no Código, o que torna mais fácil defender uma separação bem fundamentada e mais difícil defender uma que o não esteja. O artigo aplica-se aos procedimentos iniciados a partir de 1 de outubro de 2026 (artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 177/2026); os anteriores respondem pelo antigo artigo 22.º.
Perguntas frequentes sobre o artigo 17.º-B
O que é fracionamento?
Calcular o valor estimado, ou dividir o objeto do contrato, com o intuito de fugir a exigências legais: por exemplo, partir uma compra para caber no ajuste direto. É proibido qualquer que seja o valor.
Base legalArtigo 17.º-B, n.º 1, do CCP · texto oficial
Quando se somam contratos para escolher o procedimento?
Quando prestações do mesmo tipo, que poderiam ser objeto de um único contrato, são contratadas em mais de um procedimento. Mesmo tipo quer dizer aptas a satisfazer a mesma necessidade; objeto de um único contrato quer dizer que, juntas, têm uma função unitária económica e técnica. Nesse caso, cada procedimento escolhe-se pelo somatório.
Base legalArtigo 17.º-B, n.ºs 3 e 6, do CCP · texto oficial
Há alguma dispensa da soma?
Há. Um contrato ou conjunto de contratos com valor estimado inferior a 80 000 €, nos bens e serviços, ou a 1 000 000 €, nas empreitadas, pode escolher o procedimento pelo seu próprio valor, desde que não passe de 20 % do somatório. Já era a regra do antigo artigo 22.º.
Base legalArtigo 17.º-B, n.º 4, do CCP · texto oficial
Como se estima o valor de compras correntes ao longo do ano?
Nos bens e serviços de uso corrente, ou em contratos que se destinem a ser prorrogados, pelo somatório dos contratos do mesmo tipo adjudicados nos 12 meses anteriores, corrigido para as alterações previsíveis, ou pelo somatório dos contratos que a entidade preveja celebrar nos 12 meses seguintes ao início do primeiro.
Base legalArtigo 17.º-B, n.º 5, do CCP · texto oficial
Relacionados
Nesta revisão
O que muda neste artigo a 1 de outubro de 2026, nota a nota.
Referido em
Artigo anterior
Artigo 17.º-A — Regras especiais de cálculo do valor estimado do contrato
Artigo seguinte
Artigo 18.º — Escolha do procedimento
O Crivo cita os artigos do CCP nas validações que faz a cada procedimento — este incluído. Veja como na demonstração.
Pedir demonstraçãoInformação de carácter geral, baseada na versão consolidada do CCP (Decreto-Lei n.º 18/2008). Não constitui aconselhamento jurídico.